11.23.2009

(C)orações condicionais

Se tu pudesses, nesse teu jeito mimado, envergonhar-te da dimensão gigantesca dos teus braços quando o meu peito se enrosca neles, pequenino e sonhador, terias o meu sorriso matinal.

Se tu pudesses, neste anoitecer repentino, esperar-me como antes, atrás da porta sempre aberta, ver-me-ias na soleira a ensaiar cortesias breves.

Se tu pudesses, nos dias que correm, demorar-te mais um pouco até conseguirmos esticar o hoje para amanhã, eu continuaria feliz.


11.18.2009

Por aqui

Estás longe daí, mas a mensagem do telemóvel encheu-te de ansiedade. Repetiste para ti própria: “não vale a pena pensar nisso”. Desprezaste, frivolamente, esses caracteres que te incendiaram o peito dorido.



Não queres pensar nos caracteres da saudade, nem nas cores que a desbotam. Achas que este não é o momento mais adequado, sabendo de antemão que isso escapa ao teu controlo.

Não admites, porém, eu sei que já não te sentes nem daqui nem de além. Deixas, às portas da consciência, esse espírito de nómada que te move. Por isso, o desencontro com a segurança dos refúgios de antes e a ilusão dos sentimentos de pertença e de identidade.

11.15.2009

Prenúncio anunciado


(imagem retirada do blog Drawing Conclusions)

Não quero que abras a mão. Mesmo quando a forçarem. Cerra os dedos, com força, em torno daquilo que tu és realmente. Não quero que te arranquem essa parte de ti, que no fundo és tu todo.

Essencialmente, continuamos na luta. Aguerridos e crentes de que vamos vingar. Das teias afectivas, há a certeza da rede para quando os trapézios se atrapalharem. Sabemos o que queremos e isso cala as vozes que nos gritam as evidências.

Somos aquilo em que acreditamos e vivemos por isso. A felicidade não é utopia, ela mora já ali, ao virar da esquina, quando os olhos tocam a realidade que outros desejam não ver ou até lhe negam a existência. A felicidade está aqui, quando vejo a silhueta de um e a sombra do outro perfeitamente recortadas em contraluz.

Tu sabes esse abecedário de trás para a frente, é escusado repeti-lo. Tu és isso tudo que não preciso dizer-te e, portanto, sei que vais manter a mão fechada.

11.13.2009

Futuros vendados



Existe neles uma tensão em curto circuito e uma ânsia de que o dia de amanhã chegue rápido e com uma oportunidade. Deitam-se com os sonhos, mas acordam com a realidade. O chão é duro quando o pisamos descalços e frágeis. 

A falta de perspectivas gera-lhes um enorme cansaço. Há uma angústia proporcional às procuras improdutivas. Há histórias de esperança que lhes vendem gratuitamente. Sabem, então, que o livro já se fechou e ficam com uma única moral: desistir.

Têm saúde e vontade de recomeçar, mas parece que, de repente, deixaram de ter utilidade. O conhecimento e/ou experiência que adquiriram servem-lhes de pouco, ainda que se apregoe por aí, alto e bom som, a importância de os valorizar.

Existe um corropio de frustração e desespero nas suas cabeças desocupadas. Nas suas mãos, um desânimo que tentam esquecer para seguir em frente, sem se deixarem tombar no sono da inércia.

11.12.2009

Pingos de leite

O barulho irritante da máquina do café vai cronometrando a minha espera. Os não mais do que cinco minutos fazem-me desejar que chegues imediatamente. Não porque tenha muitos afazeres, mas porque não gosto de esperar.



Aproveito para escrever o papel com rascunhos de sentimentos e rabiscos do que ficou ainda por sentir. Só que o espaço à minha volta parece querer a minha atenção. A porta da entrada vai e vem sem parar, desprendendo aquele ruído grave. Os empregados preparam-se para a maratona matinal entre as mesas equidistantes.

Olho pela vidraça, na ânsia de te ver aparecer no início da rua. Nada. Só depois reparo que há mais cadeiras vazias do que gente. Uns lêem o jornal por tédio, outros pedem um café com a pressa em cima do tabuleiro. Conversa-se o mínimo, usando uma linguagem que desconhece expressões como “se faz favor”, “muito obrigado”.

São emitidas ordens ao balcão. Do lado de lá, a subserviência ao cliente mal-educado e prepotente incomoda-me. Apontam, depois, as baterias para a televisão até vir o café que lhes queime o mau humor.

Pelas mesas, já não há tentativas de diálogo, de travar conhecimento, de convivências circunstanciais. É tudo tão entornado de individualismo.

Há apenas os mais pequenos (poucos) que bebem o leite, ficam com bigodes e fazem questão de mandar beijos para os apressados, os desatentos, os irritados que não percebem sequer que podiam bem ser bonecos telecomandados num qualquer jogo de computador, accionado por um miúdo.

11.09.2009

Palmilhar

Chego com os pés a queixarem-se das paredes apertadas em que os enfiei esta manhã. Solidárias, as pernas ressentem-se do calcetamento das ruas. Não senti o ar frio nem a indiferença das pessoas (coisa rara nos dias que correm).

Foi bom ouvir o trânsito mesmo ao lado e o fervilhar da impaciência no interior de cada um, enquanto eu seguia, sem pressa, pelo passeio estreito. Virei a esquina e procurei um café para o encontro.


(imagem retirada deste blog)

Disse-lhe "atravessa a estrada, apenas". Então, chegou e trouxe consigo: risos e boa disposição. Da conversa quase se podiam fazer poemas melancólicos, com os últimos versos dedicados ao optimismo.

Saímos, por fim, como se o tempo fosse todo nosso e não existisse mais do que uma urgência: lugares e pessoas com histórias para nos contar.

11.08.2009

A ansiedade do reencontro

Estou desejosa de lhe voltar a pegar. Na bolsa, a caneta e o bloco são companheiros de viagem, inseparáveis e galhofeiros. No peito, mora sempre a vontade de os utilizar para absorver o que os olhos vêem, o que os ouvidos escutam, o que as mãos tocam, o que o nariz resgata.

Sei qual é o caminho. Procuro não me desviar, mas há também rusgas e perigos vários. Os dedos fogem do entorpecimento. Insiste-se na esperança de dias melhores para acreditar na sua concretização efectiva.

Então, ela regressa, assertiva e imprevisível. Quer, a todo o custo, fazer-se notar nas entrelinhas. E até entre os caracteres consegue espreitar.

Esta vontade ainda está cá e quer assentar arraiais. Tem força de seiva bruta e a persistência da ferrugem. E, depois, tem no papel e na caneta os escudeiros mais fiéis.

Nessa vassalagem, há trovas variadas, histórias de corredores que merecem ser contadas com todos os seus detalhes.

A pena usa tinta permanente para traçar os perfis captados no instante e para deixar passar as sensações, minimizando as emoções. Essas, ficarão para um outro registo, mais pessoal e intimista, que sustenta a vontade avassaladora que, às vezes, me toma as mãos de forma abusiva.


11.05.2009

Lá fora

Faz frio e não quero sair para o mundo assim, desprotegida. Preciso dos agasalhos que te emprestei no Inverno passado…


11.03.2009

Será que, para ele, o tempo se esgotou?

Caminho pela rua distraída. Há pessoas apressadas logo pela manhã. E ao largo desse largo, surge uma memória.

Espreito, a medo, pela porta aberta ao público. Não entro. Não ouso sequer perguntar por aquela ausência que me inquieta . Prefiro não confirmar uma quase certeza e permanecer na hipótese de se tratar de uma doença ou de uma retirada necessária.

O relógio, o de pêndulo, continua lá, na parede de cor envelhecida. À sua volta estão todos os enteados. Nesse ofício inextinguível, falta ele, a dar novo vigor aos ponteiros que se cansavam de rodar. As mãos enrugadas, o corpo curvado sobre a banca de trabalho e o olhar microscópico já não estão lá. Até a ténue luz do candeeiro se apagou.

Há sombras naquele espaço pouco iluminado e uma pessoa mais nova e no outro lado, de frente para a porta.  Não me atrevo a entrar. Prossigo a marcha sem saber se o tempo dele chegou ao fim. Quero conservar, para mim (talvez por egoísmo ou necessidade de acreditar na parte imortal das pessoas), as lembranças daquela tarde morna.

10.31.2009

Meninice à deriva

Ele tem pouco mais de palmo e meio, tez morena e sorriso esquivo Anda sempre a correr daqui para ali, dali para além. Dizem que é um menino travesso para, depois, lhe desculparem as traquinices pelo drama que marcou a sua curta vida.

Ele fica sério, talvez até um pouco triste, quando os outros, da idade dele ou mais velhos, brincam com quem lhe falta a ele. Não tem paradeiro certo, mas não se afasta de quem, gratuitamente, lhe cede atenções descomprometidas, de quem não ouvirá reprimendas injustas.

Naquele dia, ele só queria dançar, colocar a energia toda em gestos descoordenados, mas alegres. No mundo dos grandes, o baile tem companhia marcada. A plateia é dos olhares críticos, dos desajeitados crónicos, dos pseudo elitistas e dos garotos que correm e saltam sem parar. Ele estava expectante e soturno. Então, alguém lhe deu a mão e o convidou para sair do circuito dos rejeitados e dos mal-amados.

Ele é apenas um miúdo sozinho, sem uma figura que saiba dizer não, tirar o desejado para depois o ensinar a esperar. Sem aquele que olha fundo e sente orgulho por mil razões.


Anita Milek

10.30.2009

Materialidades

Guarda-o bem. Só para ti. Não julgues que com ele vais comprar o afecto sincero que te falta. Junta-lhe ainda o estatuto e a fama que outros te reconhecem. Nunca sairás do sítio, porque carregas esse tesouro desvalorizado.

O dinheiro pode satisfazer muitas das tuas necessidades, concretizar com muita facilidade os teus desejos mais extravagantes, mas torna-te amorfo, triste e frívolo. Já não sabes brincar com os sonhos, porque perdeste a capacidade de te surpreender.



Não podes comprar a sinceridade nem a amizade. Não podes comprar a confiança nem uma companhia desinteressada. Não podes vender as palavras nem fazer saldos dos teus sentimentos.

Infelizmente, vives rodeado de quem se vende, de quem se deixa deslumbrar pelo facilitismo e abandona o que tem para se deixar levar pela ilusão, pelo efémero, por um falso seguro de vida que, por vezes, ofereces.

Contudo, meu caro, a boa educação adquire-se por força do hábito. Antes de se exigir, o respeito tem que se conquistar. A alegria que gostarias de ter não se transfere, proporciona-se.

Soubesses tu querer e lutar, diariamente, por uma existência digna e autêntica, sem políticas orçamentais que aumentem taxativamente as importações de coisas que são gratuitas e diminuem as exportações de nós próprios.

10.28.2009

Estrépitos

Os prédios descansam à sombra, enquanto as ideias que deviam fervilhar se refugiam perante a passividade dos cérebros ocos.

Daqui, do lugar onde me sento, sinto por vezes náuseas asfixiantes. As conversas cruzam-se só no limite do estritamente necessário.

Há ruído. Muito. Mas não chega a abafar esta cacofonia atordoante...


Umberto Boccioni